O Carnaval e o Clube
“O Carnaval é a segunda vida do povo, baseada no princípio do riso.” (Mikhail Bakhtin)
Diz-se que o Carnaval de hoje é muito diferente e é verdade. As mais recentes transformações estruturais começaram na segunda metade do séc. XIX, no Brasil, onde as mudanças sociais e políticas encorajaram a importação e disseminação dos novos ideais europeus. O Carnaval mais comummente brincado era o de origem portuguesa (do charivari, das batalhas de farinha e água e do entrudo chocalheiro). Popular e por vezes rude, não agradava às novas elites. Assim, estas iniciam uma nova forma de brincar ao Carnaval refinada com a integração de elementos vindos da tradição da Commedia dell’Arte e do Carnaval de Veneza e onde a crítica social se aliou à charge política. A celebração popular floresce ao lado da festa elitista. Surgem os Cordões e as Sociedades Carnavalescas (uma das mais destacadas foi a dos Fenianos). Estas organizam bailes e desfiles com fantasias e carros alegóricos. Entra também em cena a marchinha Carnavalesca, inspirada na música dos negros dos cordões: “Ô Abre Alas!”, a primeira, de Chiquinha Gonzaga, a menina de família que compôs música popular.
É aqui que 4 portuenses vão buscar inspiração para fundar, em 1904, o Clube Carnavalesco Fenianos Portuenses - mais tarde Clube Fenianos Portuenses - cujos estatutos tinham como fim especial o rejuvenescimento do Carnaval. Os primeiros Fenianos souberam, ao longo dos anos, usar as festas do Carnaval e toda a influência que estes rituais coletivos têm sobre a sociedade para mobilizar as populações e conseguir consensos - marcando profundamente a cidade.
Em 1905 sai pela primeira vez no Porto um corso de tipo moderno, com desfile de fantasias, carros alegóricos e carros-reclame, todos financiados pela indústria e comércio da cidade. Para a criação deste e dos futuros cortejos foi engajada a colaboração de artistas como Rafael Bordalo Pinheiro, Teixeira Lopes ou Almada Negreiros, não raro em modelo de mecenato. Até 1909 os cortejos realizados ficaram famosos em todo o país pela sua grandiosidade e senso artístico.
Por razões alheias aos Fenianos (pensemos na I Guerra Mundial e na Grande Depressão económica americana que atingiu o comércio e a indústria a nível mundial), os cortejos Carnavalescos acabaram, sendo retomados apenas em 1939, ano em que estala a II Guerra Mundial. Depois dela, o contexto político, social e económico não era muito favorável a liberalidades. Em 1947 são proibidos os festejos Carnavalescos de rua e a partir daí aumentam as regulamentações e restrições aos que ainda eram permitidos. A partir de então os Fenianos festejaram o Carnaval dentro de portas.
A crescente nostalgia do Carnaval do início do século imperava. E o Porto pediu aos Fenianos, no seu cinquentenário, que devolvesse o Carnaval às ruas. De 1954 a 1957 os corsos de Carnaval regressaram, com a presença de numerosos grupos estrangeiros e a participação de artistas como António Pedro, Mário Norton ou Cruz Caldas, que foram financiados, como os primeiros, pelos donativos do comércio e da indústria locais. Nos anos seguintes os Fenianos enviam delegações a outros carnavais, nomeadamente o de Ovar que começa a ganhar dimensão.
Entre 1982 e 1984, naquela que foi a última tentativa de voltar a levar o cortejo de Carnaval às ruas do Porto, fizeram-se ainda "mini corsos" (um mini corso e dois cortejos maiores), iniciativas muito bem recebidas pela população em geral. Infelizmente, os custos dos cortejos eram, como já se evidenciava na década de 1950, superiores ao valor arrecadado, o que tornou definitivamente impossível manter a realização, nos mesmos termos, dos cortejos Carnavalescos.